segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A matemática do amor

Vida Vivida - Por Amanda Pieranti

Mudanças repentinas de vida são, para quem é racional, difíceis. Afinal, sempre queremos estar no controle de tudo, planejando cada detalhe, para a porcentagem de erros ser a menor possível. Eu me encaixo nesse tipo de perfil. Sempre fui daquelas que ia ao cinema sabendo os horários de filmes e não das que chegava de repente para ver se tinha alguma sessão para assistir. Sair de casa sem saber os compromissos diários, era uma heresia para mim. Coloco o verbo no passado, pois realmente estou me tornando cada vez menos racional. A última prova disso é que saí para ir ao médico e voltei com uma cadela de estimação. Quando é que isso seria possível para alguém tão racional e virginiana?

Simples, com os anos de experiência, marcados por rugas, descobri que a vida não é matemática. Eu já tinha descoberto que ela é curta. Mas não que deveria somar sempre na exatidão da conta para não sofrer as consequências de rompantes de decisão. Era daquelas que pensava mil vezes antes de comprar o tal objeto de desejo, pesquisando cinco mil vezes para ter a "certeza" de que não estava fazendo uma burrada.

E de repente, por obra do destino, a viralatinha Mel chegou à minha vida. E de sua avó, minha mãe, D. Marta, é claro! De forma que ela comandou tudo, tudinho. E o coração nos uniu em um triângulo amoroso digno de filme holywoodiano. Ainda sem nome, ela estava em uma das dezenas de feiras para adoção, bem próxima de casa. Tinha sido rejeitada pela segunda vez, pois a antiga dona se descobriu enferma e abriu mão do caozinho ainda bebê. A primeira vez foi quando chegou ao órgão protetor dos animais.
Em meu coração, já havia o desejo de ter um cachorro. Minha vida estava precisando de alegria. Estava incompleta sem ter realizado um dos meus sonhos, negados muitas vezes por minha mãe. "Vai dar muito trabalho", "Vai prender a gente", "Fora o gasto", "Você que adora viajar, vai fazer como?", "Não quero me apegar. Como vai ser quando morrer?",  eram frases ouvidas por mim.
Só que eu queria um cão de raça. Já tinha escolhido e tudo, mas estava difícil achá-lo aqui no Rio de Janeiro. Os preços estavam salgados e só encontrava machos. Queria uma fêmea. E ela estava lá, tão pertinho de mim. No dia 11 de agosto, ao olhar, como quem não quer nada, os filhotes em exibição na praça, minha mãe observou Mel e me chamando já me contou sua história.
Aquele olhar triste e carinha de me leva para casa nos cativaram. Pronto, seria sua nova dona, mas só no papel, pois minha mãe já se apoderava da cadelinha adorável, com todo o amor do mundo, exagerado e típico dos avós. Enquanto estava na fila para os trâmites burocráticos, ouvia a conversa entre ela e Mel: "Você vai para minha casa!". Foi a certeza que tinha de que todas as perguntas para qual já tinha as repostas que antes me desencorajavam seriam respondidas aos poucos, pois o que importa na vida não é a exatidão matemática das coisas, e sim a forma como vivemos as situações e nos permitimos tornar a vida menos racional.
E pela cor da cadelinha, jeito meigo de ser, coloquei seu nome: Mel Aragão de Oliveira Pieranti. Chique, não? Sem pedigree na certidão, mas com nome completo, endereço e toda a assistência que os bichinhos de estimação precisam. Bem-vinda Mel! Bem-vinda mudança de vida! Bem-vinda passionalidade! A razão me moldou, mas a vida me desconstruiu para uma nova pessoa. Hoje a família aumentou. Não sou mais eu e minha mãe. Somos nós três, aprendendo mais formas de amar!

Um comentário:

  1. Querida, seu texto me fez chorar. Queria mesmo saber a história da mel. Bjs

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