segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A força, agora, virá de onde?

Por Amanda Pieranti

Foto Reuters
Confesso, pouco me ligo em assuntos de esporte, mas desde a tragédia, não para de ecoar na minha mente o canto da torcida chapecoense: "Eh, vamo, vamo, Chape, vamo, vamo, Chape... êeeeee". Enterradas as vítimas do acidente aéreo, não se enterra uma coisa: a dor da ausência. Porque para uma perda que não é causada por doença, a ficha realmente demora a cair. E os dias que se seguem após velório, enterro, missa são cruéis para a família. Pois a vida de todos continua e a sua parece que não vai além de uma pergunta: por que?

Nos primeiros dias alguns amigos ainda ligam para saber como você está, perguntam se precisam de alguma coisa, fazem visitas, escutam você relembrar momentos felizes ou simplesmente relembrar a pessoa, mas rapidamente aquele alvoroço gerado pela comoção vai passando e cabe à vítima da tragédia que ainda permanece viva, sair da inércia, em movimentos em prol de si. Falar pode até se tornar chato, obsessão.

Não dá para ligar, não dá para falar, não dá para tocar, não dá para rever, não dá para marcar aquele encontro que há um tempão vislumbra-se marcar, não dá para estreitar laços de amizade, não dá para dizer eu te amo ou me perdoa, não dá para fazer nada. Finitude X sensação de impotência. Cruel demais.

Para lidar com o luto não há manual. Não há uma ordem. Pelo contrário: há desordem na nossa mente. Quantos conselhos demos para quem perdeu um ente querido e no momento em que se precisa mal se consegue aplicá-lo. Pode levar um mês, um ano, uma década. O luto precisa ser digerido ao seu tempo.

Penso em cada dia após todo esse cumprimento de protocolos do que se chama evento de morte. São dias terríveis mesmo. Por isso, se houver uma forma de amainá-lo, que as pessoas mais próximas dos familiares se incubam de fazê-lo.

Falo com propriedade. Claro, não perdi um filho. Perdi um irmão e vi todo esse processo se formar e se dissipar. Não só de amigos, mas de familiares. Na verdade, a gente nunca acha que uma tragédia vai nos atingir. É "sempre" com o vizinho que acontece, não é mesmo?

Fica, então, a reflexão. É fora da comoção que a solidariedade ganha brilho. É fora do dever informativo da imprensa que o amparo ganha forma. É longe dos holofotes que o real se torna possível. Força, familiares do Chape! Força, familiares da imprensa esportiva! Força demais integrantes do voo que jamais deveria ter acontecido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário